Domingo, Maio 28, 2006

sou uma menina de papá

Sou uma menina de papá e de mamá, porque o domingo nao fui à manifestaçao. A gente que conhezo trabalha de segunda a sexta numa oficina e os fins de semana em sua casa fazendo horas extras. Nao é por prazer, levamos sem sair desde o Natal para pagar a nossa vivenda digna. Na manifestaçao insultaram e desqualificaram à gente que está na minha mesma situaçao, e por isso peço um pouco mais de respeito. Os políticos nao escuitam as manifestaçoes, assim que eu prefiro luitar pelo meu futuro por mim mesma. Se tenho tempo, vou a elas, se nao, trabalho. Se isso fai que a minha vida seja cutre, sem sentido e que seja uma menina de papá, sim, senhores, o sou.

Como dizia Apu o outro dia num capítulo dos Simpsons, nao sei qual parte de este texto corrigir primeiro. É uma carta aparecida na ediçom impresa do 20 Minutos na terça 23 de maio, com ánimo de criar discussao, como todas as que lá aparezem. Desde logo, uma menina de papá nao sei, mas um bocadinho ghilipolhas sim é, esta mulherinha.

Quando eu me quis independizar da casa dos meus paes, fizem como suponho que muita gente: compartilhar piso com amigos e amigas. Após um par de experiências com gente da minha idade, fui viver com gente mais idosa do que eu, oito ou dez anos maiores que eu, com os que conviver era um prazer. Uma das coisas mais interesantes que tinha essa casa era que cada quem, no lugar duma quantidade fixa, aportava uma porcentagem do seu salário para os gastos comuns. Assim, cada um aportava segundo o que ingressava, mais todos desfrutávamos das mesmas comodidades. Esse sistema fez que eu pudesse independizar-me sem um baixom no meu nível de vida cum ridículo salário de 500 €: autêntica solidariedade de clase.

Se fosse por mim, eu seguiria hoje vivendo em comunidade, incluso, ou com mais motivo se cadra, agora que tenho filhos. Mas por algum motivo, a gente prefere viver soa ou em parelha, e assim outras comunidades desfizeram-se. É certo que a oferta de solo e vivenda actuais nao sao as mais ajeitadas para opçoes deste tipo, mas nao é menos certo que a gente nao se esforça o mais mínimo por mudar de tipo de vida. Durante uns anos tratei de turrar de proxectos de vida comunitários, e deixava-me arrastrar no jogo de construir castelos no ar durante os seraos de verao na praia, até que caim na conta de que em realidade a gente nao quer mudar de tipo de vida. Estám bem contentes lá no seu pisito no centro, ou em sua casinha nas aforas, mais preocupados pela estética que pela ética, e por desfrutar do seu tempo de ócio como tudo filho de vizinho, isso sim, sentindo-se o umbigo revolucionário do planeta e caminhando dois palmos mais por acima do chao que o resto da humanidade. Mas afondar nisto seria mudar de tema.

Ainda tivem alguma experiência mais de compartilhar bens, como o primeiro carro que tivem, que éramos uma cooperativa de três pessoas. Como no caso da vivenda que já citei, as aportaçoes para gastos faziam-se em funçom dos ingressos de cada quem, mas o desfrute do carro era rotativo e igual para tudos: uma semana cada um. Incluso acavamos socializando os gastos producidos por accidentes que nao cobria o seguro, e que em princípio eram responsabilidade exclusiva de quem provocava o accidente. Tínhamos uma cláusula muito boa que dizia que em caso de sinistro total faríamos uma festa. O carro era um Peugeot 205 do 87 que aturava o que lhe botassem, até funcionava com gasolinha sem chumbo, de feito ainda poderia seguir funcionando hoje e por isso que o Plam Renove o levara por diante pareceu-me um atentado ecológico. Ah, e esses cartos, também os repartimos.

Total, que quando um dia lhe dixem a um guardia civil que nos papeis do seguro aparecíamos três pessoas porque as três compartilhávamos o carro, sorriu com sorna e botou-me uma olhada como dizendo “estes hippies!”. Mas a mim essas hippiadas davam-me qualidade de vida, por isso voltemos à carta do início. Quando um precisa acceder a uma vivenda, tem duas opçoes: ou bem a compra, ou bem a aluga. Se uma hipoteca vai-te sair pelo mesmo preço ou um bocadinho mais cara que um aluguer, e podes pagá-la num prazo razoável, seis ou sete anos, nunca mais de dez, pode ter sentido meter-se nesse fregado.

Mas hipotecar a tua vida a trinta ou quarenta anos vista é uma soberana estupidez. E nao ter tempo mais que para currar para pagar a hipoteca já nao sei como qualificá-lo. Resulta-me difícil sentir mágoa, de feito suporto mal, à gente que especula com os seus cartos, que pensa que pode jogar a ser um pequeno capitalista, embora seja para sacar adiante a sua família ou pensando na sua velhez. Qualquer inverssom comporta um risco, e comprar agora é certamente arriscado. A idiota que escrebeu esta carta, ademais de estar tirando a sua vida pelo excusado, o único que consegue e subir o preço da vivenda para tudos, incluidos os que vivemos de aluguer. E o dia que perda a sua inverssom, quererá que lhe-la pagemos entre tudos, como os de Afinsa e o Forum.

Eu vivo ao dia, trabalho mui pouco fora da casa e sou feliz. Nao tenho medo a perder os poucos aforros que tenho na cartilha do banco, e nao me preoucupa o meu retiro, pelo de agora. Isso sim, exixo-lhe, e digo exixo, ao estado, que reparta a riqueza entre os que a estamos gerando, e isso significa mais e melhores serviços para tudos, mais qualidade de vida para tudos, sem distinçom de idade, condiçom e tenhamos ou nao papeis. Ao lado desta carta havia outra, na que uma outra rapaça dizia “ojalá obrigassem aos que nao se manifestam a asinar um documento renunciando a tudo o que, quiçás, consigamos os que sim nos estamos a mover pela vivenda, pois seria o justo”. E eu digo que manifestar-se para peder dignidade, que boa falta nos fai, assim em abstracto, pode ser um ponto de início, mas aos governantes há que exixir-lhes medidas concretas, que é hoje a grande eiva da suposta esquerda, se é que existe, coisa que eu duvido. O movimento pela vivenda, se cristaliça em algo, que vai pensando nisso.

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