Quinta-feira, Novembro 23, 2006

la kermés + pé de boi 18-11-2006

O passado sábado 18 visitárom-nos em Vigo os madrilenhos de La Kermés [1], acompanhados dos ulháns (do Val do Ulha) Pé de Boi [2]. Em verdade, foi uma de essas veladas que fam que um se reconcílie coa profission de músico. O concerto era organizado pelos Centros Sociais A Cova dos Ratos [3] e mais A Revolta.

De entrada, mosqueava que o lugar escolhido fosse La Iguana, um local incómodo onde os haja pra fazer concertos, mas curiosamente o único em Vigo que durante bastante anos tivo uma programaçao estável tudas as semanas. Finalmente, o que parecia um equívoco rematou sendo um acerto: La Iguana funciona bem cum aforo pequeno, dumas 100 pessoas, com mais gente aquilo converte-se num inferno pequeno e agobiante, e segundo, o volume atronador de outras ocasoes foi substituido esta vez por un som nítido e amável cos ouvidos. Logo decatei-me de que com aforos moderados já tinha passado ali algumas boas noites em família, com os UK Subs por ejemplo (Chupachups para os aborigens locais), ou a primeira vez que os Dusminguets tocárom em Vigo e ainda eram pouco conhezidos.

Ao chegar, os Pé de Boi iam já pela metade do seu set, fazendo que La Iguana falhase tamém essa noite na terceira coisa que a caracteriza, a sua proverbial impuntualidade. O primeiro que chamou a minha atençao foi o som tam chatarreiro do grupo. Acima do cenário uns 7 ou 8 músicos, com a acordeonista à frente. A auséncia de bateria fazia que perdessem pegada, mas curiosamente esse vazío o compensava o feito, provocado por ele mesmo, de que cada um tocava o seu instrumento pelo seu lado, completamente cruzados às vezes. Eu nao sei se foi o litro de cerveja e o par de canutos que já levava acima, ou singelamente que as melodias eram realmente boas, o caso é mergulhim-me por enteiro naquel som e rematei bailando e pedindo bises co resto da turma. Soava fresco e convincente, de gente honesta que cre no que esta fazendo. Um prazer.

No intermédio, aproveitei para mijar e achegar-me ao posto de venda. Ao perguntar pelo preço do disco da Kermés, dirigim-me sem querer à rapaza dos Pé de Boi, cos que compartilhavam o posto, e ela entrou-me com tanto entusiasmo que case morro da vergonha quando lhe dixem que, em realidade, eu o que andava era à procura do outro disco. Co cd da Kermés no peto, volvim ao andar de embaixo. Nao tardárom em aparecer duas rapazas, nao sei se a de arriba e mais outra, a oferecer-nos de novo o disco de Pé de Boi. “Venha, é um grupo que está empezando...”. Ainda um pouco tocado pelo alcohol e má conciência, e num arranque de testosterona (maldita testosterona), saquei dez euros da carteira e fixem-me com ele. Ao médio segundo as rapazas desapareceram e eu já me decatara de que acavava de pagar dez euros por algo que provavélmente escoitaria uma soa vez e logo iria a parar a um estante com mais cd’s. Pois nao, amigos, surpresa, Ano de Brétema, que assim se chama o disco, é um discaço. O som nao tem nada que ver co do concerto, e o desenvolvemento musical dos temas nao é de principiantes, desde logo. As pasagens com guitarra espanhola recordam a Pat Metheny (que reverb mais bonita), a guitarra eléctrica e o hammond à psicodélia dos 60´s, e o acordeom e os ventos a uma Fanfárria dos Balcáns. Ritmos e melodias mediterráneas, árabes e centro-europeias, nada que recorde à música tradicional galega. Ando com ele no carro e ainda nao cansei de escoitá-lo. Parabéns ao técnico de gravaçao pelo bonito uso da reverb, um ponto onde adoitam falhar muitas maquetas e discos autoproduzidos, e que neste caso junto cos arranjos é o seu ponto forte. Parabéns pelo disco e o concerto, e ánimo rapazes.

Com a Kermés chegou a profissionalidade. Uma formaçao singela, baixo, bateria, guitarra, teclados e voz, e um som preciso a um volume que acarinhava os ouvidos. Acima deles num ecrá projectavam-se imagens de revoltas globais (parez uma parvada, mas descarrega muito aos músicos de ter que encher o cenário tudo coa sua soa preséncia). Pelo que pudem comprovar depois, Kermés prescindiu dos seus temas pachangueiros e só tocou ao vivo os mais “duros”, por assim dizer. Ritmos difíciles de bailar, pouco previsíbeis, mas que por isso mesmo soárom como a outra volta de porca na sua trajectória, que já começa a ter um percorrido (quem se lembra daquel “Revuelta en la ciudad...” dos Ira Popular?). No bloque central do seu set, versoes de Hechos contra el Decoro, de 99 Posse (Curre curre guagliò), de Cicatriz incluso (Hay algo aquí que va mal...), e alguma mais que nao me lembro, salpicado com algúm outro tema do disco, que pusserom a sala de patas para o ar. O som recordava vivamente a Hechos, nao podia ser de outro jeito com Eva Reina nos teclados e Andrés Belmonte no baixo, mas botei de menos um chisquinho mais de guitarra (muito boa) cara adiante e um pouco mais de distor em um par de temas. Nao posso dizer mais, foi uma actuaçao impecável. Na duraçao nao se estirárom muito, algo que penso que já tinham previsto antes de começar, mas eu também nao gosto de concertos eternos, assim estivo bem. Em definitiva uma noite balsámica, pra fazer o que levava tempo sem fazer, beber, desfrutar de música ao vivo e da companha de amigos que fazia tempo que nao veia. Obrigado a tudos.

[1] www.lakermes.info

[2] www.pedeboi.com

[3] www.sindominio.net/caleidoskopio

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