Sexta-fera, Março 31, 2006

racismo e futebol

O outro dia, há umas semanas, Eto’o fez intençom de abandoar o campo. Samuel Eto’o é jogador de fútebol, concretamente do FC Barcelona, e vem de ser escolhido por segundo ano consecutivo melhor jogador africano. Como tantos outros desportistas africanos ou latinoamericanos, emigrou a Europa na procura de trabalho, e desde entao leva anos aturando insultos racistas nos campos de fútebol. O outro dia, quando uma parte do público comezou a imitar os gestos dum mono, Eto’o botou a andar cara aos vestiarios. Já decidira e avisara há tempo que nao estava disposto a seguir aturando por mais tempo esse tipo de comportamentos, e só a intervençom dos seus próprios companheiros impediu que abandoara o campo, entre outras coisas porque se o chega fazer mui provavelmente teriam sancionado ao equipo anfitriom, o Zaragoza, ou incluso suspendido o partido nesse mesmo momento. Compre aclarar tamém que La Romareda, o estádio do Zaragoza, é desde que tenho memória refúgio de neonazis e fascistas, e de feito nesta cidade produzem-se ataques e agressons fascistas desde há quando menos uns quince anos.

O gesto de Eto’o foi mal recebido polos mídia e o resto de futebolistas, que qualificárom o seu gesto de “desproporcionado”. Incluso um jornal aparentemente progresista como A Nosa Terra justifica os insultos nos campos de fútebol cuma argumentaçom bastante lamentável, que poderia resumir-se em “nao se zangue, Eto’o, o fútebol é assim, nao o fazem com má intençom”: http://www.anosaterra.com/documentos/central_interior.php?pagina_actual=deportes&numero=1215

A Eto’o passa-lhe o que a muitas pessoas que criticam as suas condiçons de trabalho, que sao acusadas de criar “mal ambente”, e o que consiguem é ganhar-se a enemistade ou o vazio dos seus próprios companheiros. E passa-lhe ademais que, efectivamente, este é um pais xenófobo e racista. Por muito que a maquinária mediática, dum jeito bastante grotesco, se empenhe em nos fazer crer que formamos parte da elíte económica e política mundial, o certo é que nao pasamos de ser os africanos de Europa, onde muitos espanhois e tamém muitos galegos sofrirom nao há tanto o desprezo e a humilhaçom de ser tratados como cidadans de segunda clase só por ir ganhar o pao fuxindo da miséria moral e económica do franquismo. Acreditamos ser os mais fixes à hora de nos mesturar com gente de outros paises, nao como os dos paises ao norte dos Pirineos, esses sim que sao racistas, mas o certo é que tratamos a africanos e mestiços, e mesmo aos portugueses, como seres duma cultura inferior. Sentimos como uma ameaça a aqueles que chegam a Espanha a buscar trabalho, aos que incluso a esquerda política gosta de tratar com paternalismo, e que um africano venha a meter o dedo na ferida, a dizer em voz alta que o rei está espido, nao senta nada bem.

Um insulto racista ou sexista o é dentro ou fora dum campo de fútebol. Quando alguém chama maricom a Guti, nao só está a insultar a Guti, tamém está a transmitir, consciente ou inconscientemente, que ser maricom é algo denigrante. Quando o público imita os gestos dum mono para insultar a Eto’o, estám a dizer que todos os africanos sao como monos, tudo o mundo sabe, vivem em chabolas no médio da sabana, tenhem a pirola longa e dançar e jogar fútebol é o melhor que sabem fazer. Ninguém tem porqué aturar insultos a cotio no seu lugar de trabalho, muito menos que denigrem a todo um colectivo do que formas parte, e especialmente desprotegido e vulnerável às agressons como sao os emigrantes de paises menos desenvolvidos que o nosso. Se os insultados foram as vítimas da ETA, muitos dos mesmos que agora sacam-lhe ferro ao asunto levariam-se as mans à cabeça, assim sao as coisas. O fascismo avança se nao se lhe combate, os estádios de fútebol nao tenhem porque ser o seu alto-falante, nem o seu caldo de cultivo. O gesto de Eto’o, que nao teria porqué molestar-se em fazer nada, longe de ser arrogante ou prepotente é duma dignidade e generosidade cara aos seus compatriotas africanos desgraciadamente difícil de ver hoje em dia no mundo do trabalho.

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