Domingo, Junho 25, 2006

Madrid nao paga a traidores

A notícia da saida da vida política de Pasqual Maragall nao por agardada deixa de ser uma má notícia. Nao pela saida em si, evidentemente, senao pelas circunstâncias nas que esta se produziu.

A trajetória política de Pasqual Maragall é desconhezida d’abondo para mim, pelo que nao vou a opinar do que nao sei. Mas nao se pode negar que este homem conseguiu sacar adiante e levar a Madrid, nao sem muito trabalho, um Estatut consensuado por tudos os partidos políticos com representaçao parlamentária em Catalunya, agás o Partido Popular.

Suponho também que ninguem em Catalunya agardava que o Estatut volveria de Madrid sem algum retoque. Mas o que nos surpreendeu a tudos os cidadaozinhos de a pé foi que o presidente espanhol e membro do seu mesmo partido, Jose Luis Rodriguez Zapatero, pactara um desvirtuado Estatut com o principal partido da oposiçao a Maragall, Convergencia i Unio, o que foi o mesmo que pôr a sua cabeça numa bandeixa, como bem ironiza Pepe Carreiro na portada d’A Nosa Terra desta semana (1). Dizem que Zapatero tomara já havia tempo a decisao de prescindir dele. E conhezia Maragall o seu futuro?

Em qualquer caso, a jogada política de Zapatero foi de mestre. Nao só conseguiu sacar-se do médio a Maragall, com vistas quiçás a recuperar o controlo do PSC, senao que devolveu a Barcelona um Estatut envelenado que, já na sua tramitaçao parlamentar antes do referendum, fez saltar pelo ar o consenso entre os partidos catalans e deixou entre eles, ao dizer dalguns, feridas bastante fondas que comprometeram o futuro da unidade destes partidos frente a Madrid.

Primeiro Vazquez, a continuaçao Bono e de rebote Ibarra, agora Maragall... É claro que a Zapatero nao lhe treme o pulso à hora de decapitar cabeças dentro do seu próprio partido. E também fica clara já qual é a sua ideia da “Espanha Plural”: afondar mais um bocadinho na descentralizaçao de competências e na estratégia do “café para tudos”, e que chova. O nosso Bambi vai amosando pouco a pouco a sua verdadeira face, e ainda ficam dois anos de legislatura.

Tudo isto é muito mau para as aspiraçoes de auto-governo da Galiza. Em realidade, a situaçao é bastante desoladora. Se até o de agora Touriño e o PsdeG nao fixerom mais que se comportar como uma franquícia galega do PSOE, pensar que despois de semelhante aviso vam ter a mais mínima capacidade de manobra, suponhendo que eles quissesem, claro, que nao é o caso, é pura ciência-ficçao. O BNG governa com um fato de funcionários cujas decissoes políticas se tomam em Madrid, um BNG que, sem conhezer a situaçao desde dentro, nao consegue nem conectar coas aspiraçoes do seu eleitorado nem dar a imagem de saber-se desenvolver nos centros de poder.

Há uma geraçao de gente que levam tuda uma vida luitando por melhorar as condiçoes de vida deste pais, e que olham com desesperaçao como o tempo se lhes escapa e isto vai cada vez de mal em pior. Uma geraçao que anda agora pelos cinquenta anos, que já nao sao rapazes, mas ainda também nao ancians, e que sintem a raiva de estar vivindo uma vida fustrada, quando menos em parte, e em coisas sumamente básicas, e que o pior desta situaçao é que o horizonte é negro. Sinte-se o cabreo. Galiza fica cada vez mais atrás respecto a Europa e a zona mais desenvolvida do Estado Espanhol, um desenvolvimento conseguido graças em parte, oh ironia, aos fundos que o Estado recebe da UE precisamente por posuir algumas das até o de agora regioes mais pobres da mesma, como a Galiza. A situaçao do idioma é para botar-se a chorar, e inda por riba por primeira vez em muitos anos corremos um risco muito sério de ficar atrás incluso políticamente respecto ao resto de regioes do Estado.

Somos um pais subdesenvolvido governado por uma relaçao de forças que tem tuda a pinta de perpetuar esta situaçao indefinidamente, e a verdade isso desespera um pouco, ou um muito. Acabaremos tudos como o velho daquela cançao de La Polla, Mis Riñones (2). Filhos da puta. Eu seguirei durante mais umas décadas dando a matraca, e logo darei-lhe o relevo aos meus filhos, e a ver que pasa. Mais nao posso fazer. O futuro é negro.

(1) http://www.anosaterra.com/documentos/central_portada.php?pagina_actual=portada&numero=1228

(2) http://www.rockmusic.org/polla/Jubilados.html#7

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